Balanço das Eleições Autárquicas 2025
19-10-2025
No passado domingo foi dia do país ir novamente a votos, desta vez para eleger os líderes da governação local para os próximos quatro anos. Os portugueses foram às urnas para eleger 308 presidentes de câmara, 3259 presidentes das juntas de freguesia, 2058 vereadores e 6463 lugares em assembleias municipais.
Desde logo, a participação nestas eleições autárquicas foi a mais alta dos últimos 20 anos. Desde 2005 que não se registava uma taxa de abstenção tão baixa, cifrando-se nos 40,7%, bastante abaixo dos 46,4% verificados em 2021. Dos 9,3 milhões de eleitores inscritos, deslocaram-se às urnas cerca de 5,5 milhões de portugueses.
Nas últimas eleições para o poder local há 4 anos, o PS venceu e pintou o mapa do país de cor-de-rosa, um domínio que aliás já vinha desde 2013, mas sofreu uma reviravolta passado mais de uma década. No dia 12 de outubro, o PSD venceu 136 câmaras municipais, mais do que as 127 do PS. Os grupos de cidadãos independentes venceram em 20 municípios, seguidos de 12 vitórias da CDU, 6 do CDS, 3 do Chega, 2 do Nós Cidadãos, 1 do Livre e 1 do JPP.
O mapa de Portugal está agora dominado pela cor laranja, com mais predominância para o território acima do Tejo. O PSD venceu os 5 maiores municípios do país (Lisboa, Porto, Gaia, Sintra e Cascais), e apesar de ter perdido 2 bastiões históricos (Viseu e Bragança) para o PS, os sociais-democratas foram declarados os vencedores destas eleições e são agora a força política mais preponderante a nível autárquico.
Este é de resto um fenómeno raro, visto que Luís Montenegro tornou-se apenas o segundo PM do PSD em funções, depois de Cavaco Silva, a vencer as eleições autárquicas. Com esta vitória, o PSD vai passar a liderar a Associação Nacional de Municípios Portugueses (ANMP) e também a Associação Nacional de Freguesias (ANAFRE). O partido consegue assim aliar esta vitória, às lideranças em ambas as regiões autónomas e também ser o maior partido na AR, liderando o governo.
Numa noite em que as sondagens apontavam a existência de alguns empates técnicos nas maiores cidades do país, a votação em Lisboa acabou por pender com larga margem para Carlos Moedas, que foi reeleito presidente da câmara da capital do país, obtendo mais 30 mil votos do que há 4 anos. No entanto, a divisão de vereadores entre a coligação de direita, a coligação de esquerda, o Chega e o PCP, vai exigir uma governação responsável e à base de consensos.
No Porto, a disputa foi renhida, com apenas dois mil votos a separar Pedro Duarte, ex-ministro e candidato do PSD, de Manuel Pizarro, também ele ex-ministro e candidato do PS. O socialista saiu derrotado pela terceira vez e vê agora o seu adversário suceder a Rui Moreira que liderou a cidade nos últimos 12 anos.
No que toca a mudanças, é importante olhar para cidades como: Sintra, onde o PSD com Marco Almeida destronou o PS; Viseu, que após 27 anos de governação (não consecutivos) de Fernando Ruas e uma cidade que foi sempre governada pela direita, valendo-lhe o apelido de “Cavaquistão”, passou a ser socialista; Bragança, onde o PS finalmente conseguiu tirar os sociais-democratas do poder quase 30 anos depois; Gaia, que viu Luís Filipe Menezes regressar à liderança do concelho 12 anos depois; Coimbra, cidade conquistada pelo PS (em coligação com o Livre e o PAN) através de Ana Abrunhosa; Guimarães, a cidade berço que trocou o PS pelo PSD/CDS; Faro, a capital algarvia que trouxe de volta o PS à liderança da cidade; Setúbal, onde a CDU perdeu a câmara para a antiga autarca anteriormente vinculada ao partido, que se candidatou como independente; e Évora, que trocou a liderança da CDU para o PS, através de Carlos Zorrinho.
Também houve mudanças em termos de bastiões, ou seja, municípios que nunca haviam mudado o partido de governação desde que Portugal está num regime democrático. Caíram sete nestas eleições, passando assim de 24 para 17, sendo que o PS perdeu 3 e o PSD e a CDU perderam 2 cada um.
No que toca às contas com as capitais de distrito, PSD e PS venceram ambos nove câmaras, enquanto as duas restantes foram, uma para o Nós Cidadãos e outra para independentes. Assim, o PSD conquistou: Aveiro, Beja, Braga, Funchal, Lisboa, Ponta Delgada, Portalegre, Porto e Santarém. O PS venceu: Bragança, Castelo Branco, Coimbra, Évora, Faro, Leiria, Viana do Castelo, Vila Real e Viseu. Por sua vez, o Nós Cidadãos em coligação com o PPM venceu na Guarda enquanto a independente Maria das Dores Meira venceu em Setúbal.
Olhando para estes resultados, podemos destacar algumas das figuras que saíram como vencedores da noite eleitoral. Luís Montenegro como líder do PSD e vencedor destas eleições autárquicas. Carlos Moedas que conseguiu suplantar as críticas e sair ainda mais reforçado destas eleições, apesar de todos os problemas que Lisboa enfrenta. Pedro Duarte que conseguiu ocupar o vazio deixado por Rui Moreira na liderança da cidade invicta, tendo agora obrigatoriamente de procurar consensos para governar dada a divisão dos vereadores, 6 para PSD e PS e 1 para o Chega. Ana Abrunhosa que conseguiu “roubar” a liderança de Coimbra à coligação de direita e tem agora um grande desafio após ter sido ministra da Coesão Territorial. João Azevedo que fez com que o PS conseguisse derrotar o PSD e acabar com o domínio dos sociais-democratas no “cavaquistão”. E ainda Carlos Zorrinho, que após ter sido deputado, secretário de estado e eurodeputado, ingressou agora na vida autárquica e logo com sucesso imediato ao vencer em Évora, derrotando a CDU.
Em termos de derrotados, temos os casos de José Luís Carneiro como líder do PS, que perdeu as eleições autárquicas, depois de ter vencido todas desde 2013. Alexandra Leitão por não ter conseguido recuperar a capital para as mãos do PS depois da derrota de Fernando Medina em 2021, fruto de uma campanha aquém das expectativas. Manuel Pizarro por ter somado a terceira derrota em três tentativas de conseguir o lugar de presidente da CM do Porto. André Ventura pelo Chega ter apenas conseguido vencer em três autarquias quando o seu objetivo seria certamente bastante superior. E Paulo Raimundo, pela queda continuada da CDU, que agora viu reduzidas de 19 para 12 as lideranças de autarquias, incluindo duas capitais de distrito, apesar de terem recuperado algumas câmaras no Alentejo.
Os líderes reagiram a estes resultados e apesar da tendência ser para tornar o cenário mais positivo do que realmente foi, alguns deles não conseguiram esconder a desilusão por não terem atingido os objetivos traçados para as eleições. Montenegro declarou-se vencedor, com toda a justiça, por ter conquistado o maior número de municípios e a ANMP. Carneiro tentou ver o lado positivo da derrota, por ter conquistado dois bastiões ao PSD e cinco capitais de distrito que não possuía, não se verificando a queda de representatividade do PS depois do descalabro das eleições legislativas em maio. Ventura mostrou-se desiludido por não ter repetido o feito das eleições legislativas, nas quais venceu em 60 municípios do território nacional, sendo que agora apenas se ficou pelo apelidado “fenómeno” do Entroncamento, Albufeira e São Vicente, este último que se tornou mesmo o primeiro município vencido pelo partido. Raimundo afirma que o resultado foi negativo para a CDU, apesar de manter o partido vivo como força autárquica. Nuno Melo mostrou-se satisfeito pelo CDS ter mantido as autarquias que já havia conquistado em 2021. Rui Tavares diz que o Livre teve uma prestação “moderadamente positiva” ao ter vencido e mantido a autarquia de Felgueiras e ter participado na vitória de Coimbra enquanto parte da coligação. Mariana Mortágua acha que os resultados do BE foram “modestos”. Mariana Leitão diz que a IL teve um “resultado extraordinário” ao triplicar o número de eleitos para os órgãos autárquicos em relação a 2021. Já Inês Sousa Real está satisfeita com as vitórias que o partido teve em coligação.
Em última análise estas eleições demonstraram a continuação de uma clara tendência de viragem à direita do país, que já vinha sendo verificada nas duas últimas eleições legislativas. Apesar do Chega não ter tido sequer metade dos votos que obteve nas legislativas, é já um partido preponderante agora também nas autarquias, apesar de ter conquistado apenas 3, vai ter um papel importante na vereação de várias câmaras municipais que não têm maioria absoluta para governar. É agora altura de observar atentamente o trabalho que este partido irá desenvolver no poder local, de modo a perceber se as pessoas irão ficar satisfeitas ou não com a sua opção de terem votado na extrema-direita para o seu município.
Devemos olhar para estes resultados com atenção, para perceber o que as pessoas pretendem para o rumo do país e dos locais onde vivem. Se em muitos municípios os eleitores deram um voto de confiança a quem já os governava, apesar das maiorias absolutas terem sido menos do que em 2021, noutros os munícipes mostraram-se insatisfeitos e decidiram mudar o rumo da sua liderança local, seja com tendência para a direita ou para a esquerda. No fundo, os eleitores querem mudança, querem ser mais bem governados, querem ter confiança nos seus líderes e querem desenvolvimento para as suas cidades, vilas ou aldeias, deixando para trás o esquecimento e a estagnação.
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David Estêvão
24 anos, natural de Alcobaça.
Mestre em Relações Internacionais e Estudos Europeus pela Universidade de Évora.
Licenciado em Relações Internacionais pela Universidade de Évora.
Os seus principais interesses são: Política, História, Assuntos Europeus e Organização de Eventos.

