2ª Volta das Presidenciais
06-02-2026
Portugal foi a votos para eleger o próximo Presidente da República a 18 de janeiro de 2026, uma das eleições mais importantes e mais concorridas da história da nossa democracia. Como se esperava, os portugueses diluíram o seu voto entre o número recorde de candidatos, levando à obrigatoriedade de definir um vencedor numa segunda volta, a ter lugar no dia 8 de fevereiro, com os dois candidatos com mais votos, António José Seguro, com 31,12 %, e André Ventura, com 23,52 %.
Ao olhar dos mais desinteressados pelas “politiquices” que o nosso país enfrenta, estas eleições são apenas aquilo que aparentam ser – dois candidatos que procuram conquistar o mais alto cargo da hierarquia do Estado português. Para muitos, o saudável funcionamento dos processos democráticos nem se poderá traduzir dessa forma, não fosse Portugal um dos países com pior taxa de literacia segundo a OCDE, justificando valores também eles baixos de literacia política no nosso país. Isto sugere, em parte, e em nome de um simples exercício lógico que, uma população desinteressada e pouco preparada não contempla todos os constituintes que vão a jogo já este fim-de-semana. Por outro lado, quererá sequer compreender?
Pois bem, mais do que prognósticos disponibilizados por sondagens, e mais do que comentário político televisionado ad nauseam, é necessário refletir mais que nunca o estado em que a política nacional se encontra. A escolha de um Presidente da República, por mais que certa parte da população não compreenda muito bem as suas funções, não é o mesmo que escolher que roupa vestir, ou que sapatos usar. É, pois, uma mensagem política que carrega em si as crenças e apreensões dos eleitores, por mais que nem sempre nos apercebamos do peso que um voto carrega. Apesar da mesma lógica ser partilhada em qualquer eleição, somos apresentados hoje a uma retórica política diferente que há 5 ou 10 anos.
Há, acima de tudo, que esclarecer categoricamente as opções que cada português tem nestas eleições. A escolha partirá entre votar num candidato de ideologia política democrática, de centro-esquerda, num candidato iliberal/antidemocrático de extrema-direita, ou expressar a sua vontade em branco ou nulo. Em rigor é assim que a Segunda Volta se apresenta. A partir do reconhecimento da realidade, cada um de nós deverá fazer uma escolha, mesmo que esta se converta em não fazer nenhuma.
Aqui, a discussão social começa, tal como temos assistido há semanas. De um lado assistimos à pressão a altas figuras do Estado para tomarem uma posição pública quanto à sua intenção de voto, referindo o que pensam sobre os candidatos de um lado e de outro. Por outro, assistimos a mobilização real em torno das figuras em disputa, especialmente no caso de António José Seguro, que tem arrecadado apoios à esquerda e direita, propulsionados pelo ímpeto de manutenção do regime democrático. No lado oposto, os apoios a André Ventura continuam nos mesmos moldes da sua campanha na Primeira Volta, algo tímidos em comparação com o seu oponente.
As motivações e argumentos gerais para estas eleições tenderam a afunilar-se em dois sentidos – aqueles que pugnam pela preservação e continuidade democrática e aqueles que exigem uma mudança drástica. Esta última é a mais dúbia das posições, pois desenrola-se em múltiplas perspetivas variadas, o que, de certa forma, ilustra muito bem o tipo de pensar do candidato presidente do Partido Chega. Assim, os mais radicais anseiam pela destruição do sistema democrático sobre a alçada de André Ventura, que o poderia transformar num sistema diferente, promissor e benéfico para os “portugueses de bem”. Outros, descontentes, mas aparentemente mais serenos, acreditam que o candidato que se autointitula como “antissistema” é a cura para uma democracia viciada e tomada por interesses elitistas e que, poderá desmontar ou agitar o sistema democrático, salvando-o.
Respeitando qualquer um dos pontos de vista entre os dois lados, a análise puramente política aos dois candidatos aponta para dois caminhos absolutamente distintos de governação. António José Seguro, muito mais bem encaminhado nas perspetivas de vitória, na ordem dos 67% a 71%, surge como defensor da democracia perante um candidato hostil, uma vez que estas Presidenciais são, de facto e derradeiramente, uma escolha de tipo de sistema político. Alguns dos seus críticos, mesmo aqueles que se juntam em seu apoio, afirmam que a popularidade do candidato se deve em parte à desconfiança em relação ao seu oponente e à evidente ameaça que este representa, mas destacam o seu respeito pelas instituições democráticas.
Do lado de André Ventura, já tudo se ouviu no seu discurso oportunista e demagogo, afinal, não se pode estar sempre errado quando se afirma tudo e o seu contrário. Nos últimos meses ouvimo-lo invocar “três Salazares”, propor uma revisão constitucional para dotar o Presidente da República de mais poderes e até uma possível presidência ao Conselho de Ministros caso tanto o Chega quanto André Ventura acabassem as futuras Presidenciais e Legislativas com maioria. A verdade, contudo, é que o seu tipo de discurso já vingou e estas propostas, para muitos dos eleitores, pouco ou nada significam. Aos descontentes só a mudança interessa, mesmo que destrutiva.
Porém, alguns dos dados disponíveis sobre a Primeira Volta indicam-nos a correlação negativa entre o candidato antidemocrata e o nível de escolaridade dos eleitores, levando-o a conquistar apenas 12% dos votantes com ensino superior, mas mais de 30% daqueles com escolaridade obrigatória ou menos. O inverso ocorre com o candidato democrata, que conquista os votantes com mais habilitações. É, efetivamente, um dado que ilustra muito bem a relação entre a literacia e o reconhecimento da vontade política e a importância do sistema democrático.
Julgo que, em tempos de crise política como aqueles em que vivemos, vale a pena invocar a célebre metáfora náutica de Platão quanto à democracia, focando-nos não só na sua mensagem sobre a importância de líderes sábios e preparados para as suas funções – Homens que manobram o leme com destreza -, mas também para todos nós eleitores, os marinheiros que, “elogiam e chamam marinheiros, pilotos e peritos na arte de navegar a quem tiver a habilidade de os ajudar a obter o comando (…)”.
Que se reflita então que, desta vez, mais do que sermos chamados a escolher um capitão que nos leve a bom porto, teremos de distinguir e reconhecer o capitão apto a tirar-nos da rota de colisão com os rochedos, daquele que, por motivos egoístas e vis, quer embater neles, condenando o navio e toda a sua tripulação ao naufrágio.
O conteúdo aqui expresso vincula apenas o autor do artigo.
Samuel Caires
24 anos, natural do Funchal.
Mestre em Relações Internacionais e Estudos Europeus pela Universidade de Évora.
Licenciado em Relações Internacionais.
Embaixador Júnior do Parlamento Europeu e ligado à realização de eventos desse cariz.
Os seus principais interesses são: Relações Internacionais, Política, Direitos Humanos, História, Economia e Tecnologia.

