A Revolução à Espera de Acontecer
26-10-2026
Os tempos mudam. A evolução humana germina no frenesim da sua própria caminhada, abrupta nos seus efeitos e causalidades, apanágio do antropoceno e da natureza da própria espécie. As mentalidades transformam-se, a cultura transmuta-se, os princípios morrem enquanto outros nascem, mas, mesmo após os 12 mil e poucos anos de história da civilização, a índole e espírito do nosso ser continuam palpáveis, jamais oprimidos, quase sempre reprimidos.
O que temos vindo a assistir nas últimas semanas é a prova irrefutável, se refletirmos com total sinceridade e conhecimento do mundo que nos rodeia, de que a procura pelos ideais de justiça, liberdade e bem-estar não só continua a sua natural caminhada de progresso, como se têm debatido cada vez mais com entraves artificiais desumanos, fruto da alocação de poder em mãos cada vez mais reduzidas. A Geração Z, tal como outras gerações que a antecederam, tem sido moldada, é sabido, pelas sucessivas condicionantes sociais, políticas, e económicas que acompanham a sua vivência. Julgo, no entanto, que mais que nunca, a mesma é chamada a demonstrar o seu valor, a evidenciar, sem medo, as cicatrizes provocadas por fatores limitantes que nunca a conseguiram conter, e que, pelo contrário, condicionam cada vez mais a sua prosperidade. Cada vez mais os jovens, já adultos ou para lá caminhando, sentem visceralmente que o mundo que lhes foi deixado não é nem o prometido, nem o combinado. Veem-se a braços com dilemas de tal forma fraturantes que a sua qualidade de vida, por consequência, sucumbe perante os padrões anteriormente estabelecidos. O que seria evidente há décadas, em termos de bom senso, hoje já não o é. Evidência disso mesmo são aqueles que, encontrando-se alienados da realidade – seja por terem conquistado um estatuto social privilegiado o suficiente para não se incomodarem com tais questões, ou por serem vítimas da alienação sociopolítica constante, mesmo sem o saberem – ignoram ou validam os avanços implacáveis da intolerância e repressão. Pior, regozijam-se ao contemplar as amarguras das gerações mais novas, herdeiras do mundo, deixadas para trás pelo seu próprio individualismo. É, justamente, este horizonte cada vez mais diminuto, que tem servido de alicerce reivindicativo para toda uma nova geração. Afinal, é da falência governativa que brota a manifestação social.
As evidências estão à vista um pouco por todo o mundo. Portugal, Espanha, França, Itália, Bélgica, Alemanha, Albânia, Índia, Indonésia, Argentina e outros países, têm sentido a força de uma geração que há muito se tem mantido calada. Mais conscientes da sua própria força e competência, os jovens estão a lutar por aquilo a que sempre tiveram direito, mas que ninguém lhes proporcionou. Assim, as manifestações que nos têm chegado através dos média um pouco por todo o mundo, refletem um movimento que, por mais que muitos o neguem, não é possível de ser contido.
Sem querer enveredar pela discussão do sistema neoliberal niilista em que vivemos, precursor presumível dos problemas que mais nos assolam aos dias de hoje, a verdade é que as questões como a escassez de habitação, o aumento exponencial do custo de vida, a falência das estruturas democráticas e a sua capacidade de resposta às crises, têm sido alguns dos problemas que mais têm levado o povo às ruas. O povo, claro. Desenganem-se aqueles que não veem o apoio popular generalizado que tem surgido ultimamente, por mais que estas pautas tenham sido recentemente levantadas pelas gerações mais jovens. O que para muitos é um axioma – a crise derivada de clivagens sociais cada vez mais acentuadas – para outros, uma minoria ruidosa, é apenas um monte de baboseiras sem nexo. Para estes, a vida sem sacrifício físico e mental extremos, um vício adquirido de um sistema que se alimenta da vitalidade humana, jamais poderá ser legítima.
Por muitos defeitos que possam ter as manifestações a que temos assistido, a opinião pública tem sido capturada, uma vez mais, por discussões que apenas servem para mascarar os problemas que as originam. Obviamente, uma violência arbitrária, como parte daquela que se vê em França, é um flagelo para muitos que acabam por sofrer inocentemente. Isto é, obviamente, totalmente condenável. No entanto, achar que a violência não pode ser um ato legítimo de autodefesa ou resposta à repressão é um erro gritante, por vezes hipócrita. Exemplo disso, é a opinião da tal minoria ruidosa sobre o excesso de violência por parte da polícia aos manifestantes portugueses, que têm levado a cabo protestos pacíficos. Neste caso, a violência é legitimada pelo abstrato “respeitinho” pela lei e pelos bons costumes, características fundamentais do cidadão manso, incapaz de reagir a injustiças. Pois bem, a verdade é que nem sempre as mudanças exigidas pela população se fazem ouvir. Deste modo, nem toda a revolução se perpetua na não-violência, uma vez que nem todo o opressor tem dignidade suficiente para admitir as suas próprias falhas e incompetências. Não, não temos também de discutir a natureza das mudanças sociais que, uma vez consumadas, nos libertaram da tirania e opressão, sob o prisma único de os fins justificarem os meios. Temos sim de discutir onde está a linha que separa o bom-senso, o humano e o digno, da selvajaria e do poder cego que destrói o futuro de gerações inteiras, sejam eles fruto da incompetência ou do desprezo dos governantes perante os governados. Mas, que no coquetel de esperança da qual as lutas sociais bebem, se tenha sempre presente a noção que, para haver diálogo, tem de haver vontade de dialogar. Raramente, o opressor, munido de poder legitimo ou ilegítimo, se vê na obrigatoriedade de ter de dialogar com a sua vítima, muito menos capaz de se fazer valer. É, precisamente nessa grave dicotomia, que a força do protesto surge, tentando equilibrar a balança de poder, já de si tão naturalmente desequilibrada, mas necessária para a estabilidade social.
Devido à realidade complexa destas forças correlacionáveis, e a uma sociedade cada vez mais indisposta à densidade de ideias, a luta legítima vai-se perdendo em discussões sem sentido que raramente tocam nas questões verdadeiramente fraturantes. O que resta, então, são os resultados, condenando toda a problemática a mais falta de rigor, por mais que as reivindicações sejam derradeiramente ouvidas. O problema, por mais que pareça acabar aí, por não ser escrutinado como deveria, planta a semente das próximas falhas, o que irremediavelmente leva a discrepâncias futuras bastante semelhantes. Sem dúvida, a história repete-se, mas também deixamos, evidentemente, que se repita.
Desta feita, chegamos a uma conclusão mais ou menos lógica, mas que, por mais que o seja, ainda se perde pelo caminho. A luta é legítima, visceralmente humana. Não só biológica como antropológica, enraizada na nossa capacidade de nos moldarmos a nós e ao ambiente onde nos inserimos. Quando as instituições e o sistema que nos garantia essa realidade colapsam ou entram em crise, não se pode esperar desfecho diferente que manifestações generalizadas, sejam em que molde forem. A violência dos revoltados, por mais pecaminosa que possa ser, será sempre resultado direto da negligência de sistemas governativos defeituosos ou que falham, sem demonstrar vontade de se corrigirem. Isto é, nenhum protesto pacífico ou violento existiria caso os líderes cumprissem com os pressupostos da sua própria função, indo mais longe que qualquer cidadão em prol da concretização efetiva do bem comum. É, no fundo, para isso que são eleitos.
Portanto, numa realidade onde a desresponsabilização destas funções não só acontece naturalmente, através dos seus cabecilhas, como é evidenciada pelo sistema vigente, adivinha-se uma revolução à espera de acontecer. Diante da falta de vontade de resolver o problema, como muito se tem visto, criam-se bodes expiatórios, desviam-se atenções, exacerba-se a violência, reprime-se as vontades, desmantelam-se direitos e gera-se o medo, numa teimosia quase infantil. A miragem com que os jovens têm sonhado, a sociedade estável onde poderiam ter lugar, já não passa de uma ilusão. Mostrando-o como agora, ou não, já quase nenhum se engana. Aqueles que ainda a ignoram, mais tarde ou mais cedo embaterão contra a parede intransponível da verdade. Essa é a razão que tem levado o povo às ruas, cansado de ser esmagado contra essa parede, por mais que digam que ela não exista realmente.
A revolução, que certamente se prolongará no tempo e na forma como se apresenta, tal como é apanágio, é hoje inevitável e legítima, impossível de apaziguação permanente. Poderá não ser como já foi, outrora, noutras décadas e séculos, mas carrega em si as mais elementares pretensões de vidas que se querem vividas, não exploradas, abusadas ou confinadas à vontade de minorias poderosas. Se a solução mais evidente ante problemas críticos continua a não ser tomada, optando-se pela perseguição das reivindicações, então que se condene quem não procura dar solução aos problemas, que se atribua aos mesmos o surgimento de abusos na autodefesa dos direitos consagrados, pois são eles consequências da falta de tomada de decisão, que impediria prontamente quaisquer exageros. Que se pense e reflita, para não mais cair nas esparrelas de quem se finge defensor dos oprimidos enquanto já encera as botas para nos pisar, sem pudor. Que nos unamos e que percebamos a nossa própria legitimidade, o direito a clamar pelo básico para todos e que se continue a luta até vergar a máquina repressora do progresso e da estabilidade.
O conteúdo aqui expresso vincula apenas o autor do artigo.
Samuel Caires
24 anos, natural do Funchal.
Mestre em Relações Internacionais e Estudos Europeus pela Universidade de Évora.
Licenciado em Relações Internacionais.
Embaixador Júnior do Parlamento Europeu e ligado à realização de eventos desse cariz.
Os seus principais interesses são: Relações Internacionais, Política, Direitos Humanos, História, Economia e Tecnologia.

