Considerações sobre as eleições legislativas de 2025
22-05-2025
No passado dia 18 de maio os portugueses dirigiram-se às urnas para as eleições antecipadas de 2025, após uma moção de confiança chumbada pelo parlamento ter ditado o fim do governo do primeiro-ministro Luís Montenegro. O resultado destas eleições revelou um cenário diferente daquilo que as sondagens previam, sendo que cerca de um terço do país mudou de cor política. Agora com as contas fechadas dos círculos da Europa e fora da Europa, já temos ideia da próxima configuração do Parlamento Português.
A Aliança Democrática venceu as legislativas antecipadas, tal como era apontado por praticamente todas as sondagens. Montenegro agradeceu a confiança depositada pelos portugueses, voltando a realçar o trabalho feito ao longo destes meses e reiterando que “o povo quer este primeiro-ministro e não quer outro”. Com 91 deputados eleitos, a coligação eleitoral entre o Partido Social-Democrata e o CDS-PP está em posição para voltar a governar mais uma vez, sendo que Luís Montenegro já foi indigitado como Primeiro-Ministro.
Mas a grande surpresa desta noite eleitoral foi a disputa pelo segundo lugar entre o Partido Socialista e Chega.
O Partido Socialista é o grande derrotado destas eleições, elegendo apenas 58 deputados, passando de uma maioria absoluta com 120 deputados em 2022, para uma representação parlamentar bastante reduzida em 2025. São cerca de metade dos assentos parlamentares perdidos ao longo de 3 anos. Só houve um círculo eleitoral onde foram o partido mais votado, o distrito de Évora. As eleições antecipadas ditaram o fim de Pedro Nuno Santos, que já ia para estas eleições com uma opinião pública bastante desfavorável. Foram incapazes de capitalizar a situação que PSD e Montenegro enfrentam sobre os negócios da Spinumviva, perdendo grande parte do seu eleitorado.
De qualquer das formas nunca se esperava um resultado eleitoral tão fraco, visto que já é considerado o terceiro pior resultado na história do partido Face a esta situação, Pedro Nuno Santos agradeceu a todos os que confiaram no PS, em “tempos duros e dificeis para a esquerda”, e renunciou ao cargo de secretário-geral no domingo, deixando claro que não seria candidato nas próximas eleições internas. Com a demissão anunciada de PNS, os socialistas procuram agora o seu sucessor, e já começam a surgir possíveis nomes como José Luís Carneiro ou Miguel Prata Roque.
O Chega de André Ventura, apesar de não vencer as eleições, é um dos grandes vencedores destas eleições, com 60 deputados eleitos, mais 10 do que nas últimas eleições. Num momento de euforia o líder do Chega descreveu o momento como sendo algo “histórico”, declarando que o seu partido “acabou com o bipartidarismo” que tem pautado o sistema político português.
Apesar da impopularidade do seu líder, e dos diversos casos de prostituição, furto, corrupção, etc., o Chega pode vir a ser a face da oposição ao governo de Luís Montenegro, numas eleições em que a direita parlamentar sai claramente reforçada. A aposta em temas fraturantes da sociedade como a emigração e corrupção durante a campanha política poderá ser uma das razões para explicar o crescimento do Chega, ou a falta de alternativas viáveis no centro político.
Em quarto e quinto lugar seguem-se a Iniciativa Liberal e o Livre, que vêem a sua representação parlamentar reforçada. Ambos os partidos cresceram em número de votos e número de deputados. A IL conquista mais um mandato e elege pela primeira vez 9 deputados, apresentando ao longo dos últimos anos um crescimento sustentável e saudável ao longo dos últimos atos eleitorais. O Livre, por sua vez, tem mais dois mandatos e um grupo parlamentar constituído por 6 deputados, sendo que o partido revela cada vez mais ser uma alternativa viável e consolidada no espaço da esquerda. O partido de Rui Tavares é pela primeira vez a quinta força política do parlamento português.
As eleições viram os partidos da esquerda parlamentar perder gás, com dois principalmente afetados: a CDU e o BE. A CDU vê-se reduzida a 3 deputados, perdendo um em relação a 2024, mas mantêm o seu grupo parlamentar. Em contrapartida, o Bloco de Esquerda sofre uma grande derrota, passando de cinco deputados eleitos para uma deputada única, Mariana Mortágua. Foi uma noite complicada para os dois partidos de esquerda, que viram os seus esforços durante a campanha eleitoral cair por terra. Agora é o momento de repensar que passos tomar daqui para a frente, sendo que são dois partidos que parecem ter estagnado nos últimos anos.
A noite eleitoral teve ainda mais duas surpresas. O Juntos Pelo Povo conseguiu eleger no círculo eleitoral da Madeira e fez história como o primeiro partido de perfil regional a chegar ao Parlamento Português. O JPP é mais recente entrada na Assembleia da República, sendo representado por Filipe Sousa, uma das principais figuras do partido. Mais ainda, ao cair da noite, aquando da contagem dos últimos votos, o PAN conseguiu eleger pelo círculo eleitoral de Lisboa a líder Inês Sousa Real. Isto foi um alívio para os membros do partido, visto que arriscavam ficar fora do Parlamento pela primeira vez desde 2015.
A Aliança Democrática venceu mais uma vez as eleições, mas ainda não foram capazes de atingir o número de 116 mandatos necessários para governar em maioria absoluta. Fica também aberta a questão sobre quem é a segunda força política, em prática, o líder da oposição. Por um lado, o Chega elegeu mais deputados; por outro, o PS teve mais votos. Por agora, espera-se saber as nomeações das próximas figuras que vão constituir o governo de Portugal.
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Miguel Toscano
24 anos, natural de Vila Viçosa.
Mestre em Relações Internacionais pela Universidade de Aalborg.
Licenciado em Relações Internacionais pela Universidade de Évora.
Mente criativa com paixão para a gestão de projetos.
Tem como áreas de interesse: Governança Global, Estudos de Desenvolvimento, Sociedade Civil, Defesa, Estudos Ambientais e Assuntos Europeus.

