Irão – O Palco da Instabilidade
25-03-2026
“O mundo já está cheio de sofrimentos e infortúnios sem que as guerras os multipliquem.”, assim escreveu J. R. R. Tolkien em “O Regresso do Rei”, o terceiro e último capítulo de O Senhor dos Anéis. Da ficção para a realidade, pouco difere. Uma vez mais, assistimos a um escalar de conflito no Médio Oriente que desafia a vida quotidiana das sociedades ao redor do mundo. As mudanças geopolíticas recentes parecem ter anestesiado o povo ocidental, já resignado a suster as consequências de conflitos originados pelo ego dos geriátricos que nos governam.
Assim, meses depois de um ataque coordenado dos E.U.A as três instalações nucleares iranianas, este decide, juntamente com Israel, voltar à beligerância, desta vez numa escala bastante mais volumosa. As justificações para tal parecem aumentar dia após dia, numa guerra que reflete o desvario crescente de Donald Trump, a sua visão governativa e a posição internacional dos Estados Unidos. Entre as justificações destacam-se aquelas que de alguma forma se repetem durante anos, várias vezes proferidas por Benjamin Netanyahu há mais de 30 – “Dentro de três a cinco anos, podemos partir do princípio de que o Irão alcançará a autonomia na sua capacidade de desenvolver e produzir uma bomba nuclear”, e outras como impedir retaliações iranianas iminentes após ataques israelitas, assegurar o controlo dos recursos naturais do Irão, concretizar uma mudança de regime, e algumas outras.
Não obstante, ao fim de 26 dias de guerra, os E.U.A eliminaram Ali Khamenei, ex-líder supremo do Irão, deixando o seu filho no lugar, contabilizam-se milhares de mortos e feridos, entre os quais crianças, inclusivamente num bombardeamento a uma escola e, como resposta, o Irão tem atacado os países do Golfo pérsico e até Israel, demonstrando ter um arsenal bélico avançado. Contudo, e como já é apanágio de outras regiões ocidentais, como a Europa, o alarme soa apenas quando algo que os afete acontece. Devido a este conflito, o Irão decidiu encerrar o Estreito de Ormuz, por onde passam uma grande percentagem de produtos e matérias-primas essenciais para diversos setores pilares da economia global.
Para além de 20% do petróleo mundial, também outros produtos como amónia e enxofre, essenciais para a produção de fertilizantes, estão em risco devido ao bloqueio. A situação não parece ter fim à vista, pois, à data de hoje, a posição oficial do Irão é o da rejeição do status quo anterior à guerra, evidenciando a vontade de obter controlo máximo do Estreito. Outra matéria-prima importante de salientar é o ácido, importantíssimo para a obtenção do cobre, e o hélio, um gás de difícil obtenção e produção, fundamental para a medicina e indústria de tecnologia.
Este último quebrou em produção ao mesmo tempo que o gás natural liquefeito, devido ao encerramento das instalações de Ras Laffan no Catar, graças à guerra. Como consequência, os mercados internacionais dispararam, levando a um medo real de recessão económica global. Já vários países acionaram ou cogitam acionar medidas preventivas que permitam racionar melhor tanto petróleo quanto gás natural, numa tentativa de diminuir os impactes da guerra. Contudo, a situação não é favorável.
Assim, nas últimas semanas, e depois das ameaças americanas de destruir a infraestrutura elétrica do Irão, Donald Trump prometeu um cessar-fogo, afirmando entrar em conversações com o país para formalizar um acordo. Ao contrário do que alguns esperavam, o Irão não tem dado sinais de recuo e negou que as conversações tivessem sequer ocorrido inicialmente, mantendo a sua posição de retaliar proporcionalmente todos os ataques, inclusivamente, ameaçando destruir a infraestrutura elétrica dos países circundantes.
Os E.U.A, ao mesmo tempo, e perante as duras cinco condições iranianas para a suspensão da guerra, prepara uma possível intervenção por terra, enviando tropas para o Golfo, tendo como alvos possíveis a ilha de Kharg e outros pontos estratégicos. Por outro lado, é cada vez mais evidente que Israel não vê de bom grado o fim desta guerra estratégica, por diversos motivos. Para além do facto de Netanyahu estar, há vários anos, em conflito com o sistema judicial israelita, tentando obter um perdão presidencial, é também facto que a sua liderança se tem sustentado nas promessas de eliminação dos inimigos de Israel, mudar o regime ditatorial do Irão, e expandir o território israelita. Prova disso é, por exemplo, as recentes declarações do ministro das finanças do país que afirma que Israel deveria alargar a sua fronteira com o Líbano até ao rio Litani, no interior do sul do país. Cada vez mais, é a guerra que mantém o primeiro-ministro israelita no poder.
Embora não seja possível determinar quando o conflito poderá acabar, é certo que, se para breve, uma reviravolta geopolítica sem precedentes terá de ocorrer. Hoje, o Irão anuncia que, caso as operações terrestres realmente ocorram, poderá encerrar também o Estreito de Bab el-Mandeb, a sul do Iémen, por onde passam quase 12% do petróleo submarino mundial, o que agravaria ainda mais a crise internacional. Para além disso, o recém apresentado “15-point peace plan” da administração Trump, um conjunto de compromissos entre as partes para pôr fim ao conflito, foi veementemente rejeitado pelo Irão, diminuindo as expectativas quanto ao fim do conflito armado no Médio Oriente.
As próximas semanas serão decisivas para determinar o rumo desta guerra, especialmente após os cinco dias de tréguas anunciadas por Trump a 23 de março deste ano. É praticamente certo que a instabilidade continuará na região e no mundo nos próximos tempos. Resta saber, porém, em que moldes.
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Samuel Caires
24 anos, natural do Funchal.
Mestre em Relações Internacionais e Estudos Europeus pela Universidade de Évora.
Licenciado em Relações Internacionais.
Embaixador Júnior do Parlamento Europeu e ligado à realização de eventos desse cariz.
Os seus principais interesses são: Relações Internacionais, Política, Direitos Humanos, História, Economia e Tecnologia.

