Mamdani e a onda azul americana: ilações das mais recentes eleições americanas
11-11-2025
Na semana passada os americanos saíram à rua para votar no primeiro grande momento eleitoral da segunda administração Trump. Os democratas venceram as principais disputas e os resultados superaram as expectativas das sondagens, que por sua vez já eram otimistas para o Partido Democrata. Em alguns sítios chegaram a superar as sondagens por mais de 10 pontos, numa noite histórica em que os americanos mostraram o cartão amarelo a Donald Trump.
A grande vitória histórica da noite foi obviamente Zohran Mamdani, o presidente-eleito da câmara de Nova Iorque que agregou mais de 1 milhão de votos, algo que não acontecia na cidade desde os anos 70. O jovem socialista de 34 anos atingiu a maioria absoluta, derrotando Andrew Cuomo, que concorreu como independente. A partir do 1º de janeiro, Mamdani será o primeiro “mayor” muçulmano da “Biggle Apple”, o primeiro de ascendência sul-asiática, o primeiro nascido em África, e o mais jovem que a cidade já viu, proclamando que “Nova Iorque vai continuar a ser uma cidade de emigrantes, construída por emigrantes, e, a partir desta noite, governada por um emigrante”.
Foi uma campanha desafiante, visto que Nova Iorque é uma cidade com um claro trauma com o Islão e muçulmanos, dado o 11 de setembro; e também por causa da atual situação em Gaza, que afetou a campanha nos últimos meses. Já para não falar que, apesar dos escândalos/críticas a que estava associado o seu adversário, Cuomo tratava-se de uma opção valorizada por muitos nova-iorquinos, por causa do seu trabalho como Governador de Nova Iorque ao longo de 10 anos.
O seu projeto político funcionou não só por ser uma antítese à administração Trump, mas também por se tratar de uma campanha pautada pela autenticidade e com um foco claro em desafios importantes que a cidade enfrenta, como o elevado custo de vida, os problemas na habitação, a regularidade transportes públicos, o estado dos hospitais, a proteção social, etc. Mamdani arriscou ao ser autêntico e firme com as suas convicções, na sua visão para Nova Iorque e os passos necessários para a concretizar. Foi capaz de remodelar o eleitorado, levando centenas de milhares de não eleitores às urnas, desde jovens a imigrantes marginalizados. Uma autêntica mobilização em massa, que deixou clara no seu discurso de vitória, direcionado para Trump: “se alguém pode mostrar a uma nação traída por Trump como derrotá-lo, é a cidade que o criou […] para chegar a qualquer um de nós, terá de passar por todos nós”
Contudo, Mamdani não foi a única grande figura da noite. Na Virginia, os eleitores escolheram a democrata Abigail Spanberger, ex-membro da Câmara dos Representantes, ex-agente da CIA, e agora, a primeira mulher a governar o estado norte-americano. Foi uma campanha com muita qualidade, superando o desempenho de candidatos democratas recentes em todo o mapa na Virgínia. Em Nova Jérsia, onde Trump apoiou Jack Ciattarelli, os eleitores optaram por Mikie Sherill, mantendo os democratas no poder. Um fator importante foi a sua capacidade de conseguir agregar os votos do eleitorado moderado e latino, decisivo na sua vitória.
Na Califórnia, os eleitores deram ao governador Gavin Newsom os votos necessários para aprovar uma medida eleitoral que eliminaria as atuais fronteiras distritais do Congresso. Esta medida poderá ser um impulso às esperanças dos democratas de ganharem uma maioria na Câmara dos Representantes, estabelecendo novos mapas que dariam aos democratas cinco distritos mais favoráveis. Uma última menção para o caso curioso de Michelle Wu, que fez um trabalho tão bom ao longo do seu mandato que foi reeleita sem qualquer oposição.
Os democratas à escala nacional beneficiaram de uma aposta em candidatos de diferentes partes do espetro ideológico: uns mais à esquerda, outros mais ao centro, mas, sobretudo, adaptados às circunstâncias e aos desafios dos seus meios. Em contrapartida, os republicanos apresentaram candidatos alinhados com prioridades à escala nacional, o que pode ter custado algum eleitorado. Houve, de certa forma ou outra, dois pontos comuns em que todas as campanhas democratas se focaram: a questão da acessibilidade económica e uma demonstração vívida e clara para com a administração de Trump.
No próximo ano há eleições intercalares, as chamadas midterms, que poderão retirar a maioria no congresso aos republicanos, consequentemente diminuindo o poder do presidente Trump, que está com a menor popularidade de sempre nas sondagens, enquanto presidente dos EUA. Este foi rápido a reagir aos resultados desastrosos dos republicanos nas urnas, atribuindo a culpa à paralisação do governo federal e à ausência do seu nome no boletim de voto.
Depois das intercalares, e dependendo dos seus resultados, teremos uma ideia mais clara de quem serão as grandes figuras que vão disputar as primárias democratas na escolha do candidato para a corrida à Casa Branca em 2028. Pois isto foi algo que não ficou claro com os recentes resultados.
Apesar do impacto que se fez sentir desta onda azul americana, ainda falta encontrar uma maneira de resolver os conflitos internos que os Democratas enfrentam após as derrotas esmagadoras em 2024. Por um lado, temos forças moderadas emergentes, como Spanberger e Sherill; por outro, há também fortes nomes progressistas como Mamdani e Newsom que vão estar debaixo dos holofotes.
É uma altura importante para os democratas, sobretudo porque os primeiros meses destas “novas caras” vão ser determinantes para decidir o caminho que o Partido deve seguir e para atingir um bom resultado nas midterms. Desta forma, é importante avaliar bem as estratégias que foram aplicadas e identificar os pontos comuns que foram determinantes nas vitórias. Podemos dizer que os democratas venceram esta “batalha”, mas uma leitura errada a longo prazo pode pôr em causa as chances de vencer a “guerra”.
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Miguel Toscano
24 anos, natural de Vila Viçosa.
Mestre em Relações Internacionais pela Universidade de Aalborg.
Licenciado em Relações Internacionais pela Universidade de Évora.
Mente criativa com paixão para a gestão de projetos.
Tem como áreas de interesse: Governança Global, Estudos de Desenvolvimento, Sociedade Civil, Defesa, Estudos Ambientais e Assuntos Europeus.

