08-10-2025
Nos céus da Europa, paira hoje mais do que o ruído inquietante de drones não identificados – paira a sensação cada vez mais nítida de que o continente pode estar a regressar ao limiar de uma guerra global. Os últimos acontecimentos na Europa e as tensões a nível mundial revelam, cada vez mais, que podemos estar perto de denominar os confrontos recentes de “nova guerra mundial”.
A sucessão de episódios de drones não identificados a sobrevoar bases militares na Suécia, Finlândia e Dinamarca, países integrantes da NATO, não pode ser encarada como mera coincidência. Trata-se de algo mais profundo, que se insere num tabuleiro geopolítico cada vez mais inconstante. Os drones avistados junto a infraestruturas militares e energéticas em vários pontos do norte europeu, nomeadamente durante ou na véspera de encontros diplomáticos e cimeiras europeias, têm um significado simbólico e estratégico. Funcionam como instrumentos de provocação e, simultaneamente, de medição: testam os limites de vigilância, a prontidão militar e, acima de tudo, a reação política do Ocidente.
O padrão é conhecido. Desde o início da guerra na Ucrânia, o Kremlin tem usado táticas híbridas para projetar influência e semear instabilidade – ataques cibernéticos, campanhas de desinformação, manipulação energética, e agora, sobrevoos de drones que desafiam fronteiras e autoridades. O objetivo não é apenas militar, é psicológico e político. Cada incursão não identificada gera insegurança, incerteza e especulação, alimentando o medo, arma poderosa num continente ainda marcado pelo trauma da guerra. Mais do que um ataque direto, trata-se de uma estratégia de desgaste: provocar o inimigo sem se expor completamente, criar incidentes que fiquem sempre aquém do limiar formal de conflito armado.
Neste contexto, as eleições na Moldávia, realizadas no final de setembro, ganham uma relevância particular. Tal como a Ucrânia antes da invasão de 2022, a Moldávia é hoje um país que vive entre duas forças de gravidade política – a atração pela União Europeia e a pressão da Rússia. O triunfo do partido pró-europeu de Maia Sandu, apesar das denúncias de interferência russa e das campanhas de desinformação nas redes sociais, representa uma vitória do ideal europeu num território que Moscovo considera parte da sua esfera de influência natural.
A narrativa russa reagiu, previsivelmente, acusando a União Europeia de interferir nas eleições e até de planear a ocupação da Moldávia. As palavras não são inocentes. Fazem parte de uma estratégia de intimidação e de reescrita simbólica do mapa político europeu, onde cada eleição livre e cada país que se aproxima de Bruxelas é visto como uma provocação a Moscovo.
A verdade é que os drones que sobrevoam bases militares e as interferências em processos democráticos são faces da mesma moeda e representam um novo tipo de confronto, caraterizado por uma guerra travada à distância, através da informação, da tecnologia e da manipulação de perceções. Os conflitos do quotidiano não se tratam apenas de batalhas por território, mas por influência, legitimidade e poder simbólico. A Rússia tenta mostrar que continua a ser capaz de desafiar o Ocidente em múltiplas frentes, mesmo quando sancionada e enfraquecida pela guerra da Ucrânia. E a Europa, por sua vez, hesita entre a firmeza e a prudência, entre a necessidade de proteger o seu espaço aéreo e o receio de uma escalada direta com uma potência nuclear.
A aproximação da Moldávia à União Europeia, tal como antes a da Ucrânia, revela uma tendência histórica que Moscovo teme: o alargamento do modelo democrático europeu a territórios que outrora orbitavam na sua esfera. Para o Kremlin, cada passo nesse sentido é uma ameaça existencial, uma erosão do seu poder de influência e da sua narrativa imperial. É também por isso que a Europa, ao defender as escolhas democráticas na Moldávia, se vê empurrada para uma linha de tensão cada vez mais fina entre diplomacia e confronto.
E talvez seja aqui que se impõe a reflexão mais preocupante. Estamos, de facto, a viver um tempo em que as fronteiras da guerra já não são geográficas. A guerra está nos céus, nas redes, nas urnas e nas consciências. Cada drone que cruza um espaço aéreo da NATO sem autorização, cada tentativa de manipular eleições num país soberano, cada campanha de desinformação que semeia dúvida e medo, são fragmentos de um mesmo conflito difuso que se intensifica silenciosamente.
Nos bastidores da Aliança Atlântica – a NATO –, o alarme soou (ainda) mais alto com a invocação, por parte da Polónia, do Artigo 4.º do Tratado do Atlântico Norte, que prevê consultas imediatas entre os aliados quando qualquer membro considera que a sua integridade territorial, independência política ou segurança estão ameaçadas. Esta ativação demonstra que a situação deixou de ser vista apenas como um conjunto de incidentes isolados e traduz o reconhecimento de que o espaço aéreo europeu está, efetivamente, a ser testado e violado, ou seja, o que antes poderia ser visto como simples provocação passou a ser tratado como um ato com potencial impacto estratégico e coletivo.
Mais do que um gesto diplomático, a ativação do Artigo 4.º representa um aviso claro: a NATO está consciente de que enfrenta uma nova forma de agressão, menos visível mas igualmente perigosa. Ao reunir os aliados, a Aliança não só procura coordenar respostas e reforçar a vigilância aérea, como também enviar um sinal inequívoco de unidade. A mensagem é simples: qualquer tentativa de destabilização, mesmo sem ataques diretos, será interpretada como ameaça à segurança comum. Este pode ser o ponto em que a retórica de dissuasão começa a transformar-se em ação concertada.
A possibilidade, ainda que remota, de se avançar para a ativação do Artigo 5.º da NATO paira agora sobre as capitais europeias como uma sombra inquietante. Este artigo, o coração do tratado, consagra o princípio da defesa coletiva e salvaguarda que um ataque a um dos Estados-Membros é considerado um ataque a todos. A sua invocação transformaria de imediato uma série de incidentes regionais num conflito de escala global, obrigando a uma resposta militar coordenada. Até hoje, o Artigo 5.º foi acionado apenas uma vez – por parte dos EUA, após os atentados de 11 de setembro de 2001 –, o que demonstra o peso político e simbólico dessa decisão. No entanto, perante os sobrevoos persistentes, as provocações híbridas e a sensação de vulnerabilidade crescente, não é descabido admitir que a fronteira entre o prudente e o necessário se está a tornar cada vez mais ténue.
A mera discussão sobre o Artigo 5.º já revela o ponto de tensão a que a Europa chegou. Caso um drone identificado como hostil cause danos materiais, vítimas ou penetre de forma comprovada em espaço aéreo soberano da NATO, a pressão para acionar a cláusula de defesa mútua seria inevitável. Tal passo equivaleria, em termos práticos, à entrada formal da Aliança numa nova fase de confronto direto, não apenas militar, mas civilizacional, entre modelos de poder, de governação e de verdade. A invocação do Artigo 5.º não seria apenas uma resposta a um ataque, mas uma declaração de que o Ocidente reconhece estar em guerra, mesmo que essa guerra, por agora, se travasse mais nos céus e nas redes do que nas trincheiras.
A verdade é que se tem hesitado em utilizar a expressão “Terceira Guerra Mundial”. No entanto, a globalidade do conflito pode não se manifestar com tanques a atravessar fronteiras – pode, sim, começar com drones anónimos, eleições manipuladas, e uma sucessão de pequenos incidentes que, somados, formam o prelúdio de algo maior.
A Europa encontra-se, mais uma vez, diante de um dilema histórico: manter a calma e a racionalidade diplomática, ou reconhecer que a paz já está a ser testada. O que hoje parece apenas provocação pode, amanhã, ser o desencadear de um confronto inevitável. E se há algo que a história europeia nos ensinou, é que as grandes guerras raramente começam com declarações formais – começam com silêncios, com omissões e com o erro fatal de subestimar os sinais do tempo.
O conteúdo aqui expresso vincula apenas o autor do artigo.
Daniel Novais
22 anos, natural de Coimbra.
Mestrando em Ciência Política na Universidade de Aveiro.
Licenciado em Relações Internacionais pela Universidade de Évora.
É muito ligado ao associativismo, sendo o atual Secretário-Geral da Federação Nacional dos Estudos Europeus.
Tem como principais interesses: Política, Direitos Humanos, Organização de Eventos e Desenvolvimento de Projetos.

