ODS 2030: Realidade Alcançável ou Utopia Distante?
01-08-2025
Desde 2015, a Agenda 2030 e os seus 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) têm sido apresentados como um projeto global ambicioso, com o intuito de erradicar a pobreza, reduzir as desigualdades e enfrentar a crise climática. No entanto, com o horizonte de 2030 a aproximar-se rapidamente, há uma questão que se impõe: os ODS representam uma meta realista e alcançável, ou um ideal utópico?
O Acordo de Paris, estabelecido também em 2015, representa o compromisso internacional de limitar o aquecimento global a um máximo de 2 °C, e constitui a base das estratégias climáticas que sustentam o ODS 13 (Ação Climática). Contudo, a saída dos Estados Unidos do acordo, concretizada em janeiro de 2025 sob a nova presidência de Donald Trump, marcou profundamente este sistema de confiança global.
Em contraste, a União Europeia (UE) mantém o seu firme compromisso com a trajetória climática. Através do Pacto Ecológico Europeu, a UE ambiciona alcançar a neutralidade carbónica até 2050, tendo definido metas ambiciosas para 2030. A UE integra os ODS nos seus planos estratégicos, alinhando políticas nacionais e regionais através de uma coordenação eficaz. A Presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, descreveu o Acordo de Paris como “a maior esperança para a humanidade”, mesmo face ao retrocesso dos EUA.
No entanto, saída dos EUA do Acordo de Paris compromete a estabilidade do sistema climático global. A postura dos EUA como um parceiro problemático nas negociações ambientais, e a sua decisão de abandonar os compromissos estabelecidos no Acordo de Paris, afetam diretamente a credibilidade e os recursos disponíveis para a implementação dos ODS. O bloqueio do financiamento à ajuda internacional e o voto contra a Agenda 2030 na ONU evidenciam um distanciamento sistemático.
O Relatório de Indicadores dos ODS (The Sustainable Goal Report 2025), publicado em julho de 2025, adverte que apenas cerca de 18% das metas estão no caminho certo para serem cumpridas até 2030. A pobreza extrema, intensificada pelo aumento de cenários de guerra e pelas crescentes crises climáticas, deverá atingir mais de 600 milhões de pessoas em 2030, de acordo com o World Bank, o dobro do objetivo inicial. Especialistas alertam que os cortes na cooperação internacional, em particular por parte dos EUA, agravam ainda mais esta crise.
Os ODS permanecem um mecanismo internacional fundamental para a construção de um mundo mais justo e sustentável. No entanto, a sua implementação assume um caráter cada vez mais político. A liderança da Europa e os esforços dos países emergentes abrem caminho para progressos, mas o enfraquecimento do multilateralismo, em especial devido à relutância dos EUA em cooperar, impacta substancialmente o cumprimento das metas.
Será que os ODS se revelarão uma utopia inatingível ou um objetivo real e alcançável? A questão que motivou este artigo só encontrará resposta ao longo dos cinco anos que restam. Com financiamento adequado, coordenação eficaz, vontade política firme, apoio global abrangente e consciencialização crescente, ainda é possível inverter a tendência de insucesso. Sem estes elementos, corremos o risco de que a Agenda 2030 permaneça apenas um ideal global no papel.
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Carolina Carvalho
26 anos, natural da Covilhã.
Mestre em Ciência Política e Relações Internacionais pela Nova FCSH.
Licenciada em Estudos Europeus pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.
Ligada à investigação sobre Migrantes Climáticos e Associativismo.
Tem como principais interesses: Direitos Humanos, Relações Internacionais, Assuntos Europeus e Organização de Eventos direcionados a jovens estudantes e recém formados.

