Protestos no Nepal – Uma Reflexão
18-09-2025
As dificuldades sociais a que qualquer cidadão está sujeito são, na grande maioria das vezes, um fator absolutamente crucial no decorrer da sua vida. O contexto geográfico-político no qual se pode estar inserido, isto é, onde se vive, ou melhor, em que país se vive e que desafios políticos existem nesse mesmo país, torna-se um fator intrínseco a analisar qualquer questão social, política e/ou económica. Cada um de nós, tal como cada ocorrência relevante numa dada sociedade, é o espelho do funcionamento da mesma.
Ora, no passado dia 8 de novembro de 2025, uma onda de protestos fez abalar as fundações políticas do Nepal, sob uma conjuntura inicialmente tida como curiosa. Desta forma, os protestos a que se tem assistido recentemente surgem de um movimento organizado e encabeçado pela chamada “Geração Z”, posicionada contra o estilo de vida acima da média dos filhos das principais figuras do Estado nepalês. No dia anterior, o agora ex-primeiro-ministro do Nepal Sharma Oli ridicularizou os jovens protestantes que planeavam causar maior agitação pelas ruas, isto após a decisão do governo de banir cerca de vinte e seis plataformas de redes sociais do país, um dos maiores consumidores per capita destas plataformas do sul da Ásia, por incumprimento de prazos para registo no Ministério da Comunicação e Tecnologia da Informação nepalesa. Esta decisão, vista pela generalidade como uma tentativa de supressão do sentimento anticorrupção que se fazia sentir, fez despoletar os protestos entre a população, tornando a sua luta não uma reivindicação ao direito ao uso das redes sociais, mas algo mais, uma revolta a favor da mudança de status quo político com foco na corrupção vigente. Assim, das demonstrações de desagrado que ocorreram nos últimos dias resultaram, à data do dia 12 do mesmo mês, vinte e um protestantes mortos, resultantes da repressiva carga policial ordenada pelo governo, com o intuito de apaziguar a população.
Importa assim entender-se que este acontecimento tem origem nos profundos problemas políticos que afetam o Nepal, por mais que se possa apontar, com total veracidade, as redes sociais como o catalisador dos protestos, especialmente por se posicionarem como o abre-olhos final da população, evidenciando, como através da “nepo baby trend”, a vida de luxo que os filhos de políticos viviam, completamente contrária à da grande maioria da população. São, assim, vários os fatores que contribuíram para este clima político ardente, uma vez que a corrupção vivida no país é multifacetada. Para além do fenómeno da erosão democrática que se sentia pelo país ser um contributo para o descontentamento geral, as consequências económicas da corrupção constituem-se como o fator de maior peso para esta questão.
O desvio de recursos das infraestruturas públicas e o seu desinvestimento, as práticas danosas que afetam o serviços mais essenciais do Estado, a falta de transparência e outros fatores similares, tiveram como consequência o reforço de um ciclo de subdesenvolvimento, contrastante com o modo de vida de que a elite usufrui. Esta realidade acaba por ser um efeito prolongado da fragilidade democrática do país, muito devido ao legado histórico de autocracia instaurada no território. Desta maneira, alguns dos efeitos deste tipo de regime continuaram a estar presentes na estrutura política atual, o que despoletou, derradeiramente, os problemas fraturantes hoje sentidos pelos seus habitantes e evidenciados pelos seus líderes. Por sua vez, a falência económica progressiva, manifestamente distinta entre a população comum e os representantes políticos, reforçou ainda mais a apatia democrática e consequentemente a descrença no sistema vigente, aumentando o descontentamento.
Perante esta conjuntura, a situação política vivida no país apresentava-se, no fundo, como uma bomba-relógio, à espera de ser acionada. Esta realidade abre caminho para duas importantes questões, que se constituem como uma só, distinguindo-se por duas perspetivas contrastantes. Assim, podemos perguntar-nos – até onde pode a máquina do Estado reprimir a sua população sem ter de sofrer represálias diretas significativas, isto é, que ponham em causa o seu modelo de regime e o controlo do poder? Numa segunda perspetiva, até que nível e até quando pode um povo aguentar a repressão sucessiva? As respostas possíveis variam. Se se analisar bem, para além das possíveis respostas, concebemos ainda mais questões, ligadas sobretudo à ética e moral. Deste modo, sob uma crescente repressão de um Estado sobre uma população oprimida que retalia mostrando o seu desagrado, onde se situa o limite ético e moral da resposta do oprimido? Haverá, sequer, uma linha que sirva de fronteira quando a opressão transpõe os limites do que é tido como aceitável?
De um certo ponto de vista, percebemos que estas perguntas não têm total valor se forem idealizadas com o simples intuito de serem respondidas, devido à multiplicidade de explicações que podem ser dadas e diversos pontos de vista que podem ser apresentados. Poderão servir, então, de pontos de reflexão profunda. Por um lado, poderá haver quem afirme que a violência apenas gerará violência, mesmo que efeitos benéficos relevantes possam surgir do seu uso a curto prazo, uma vez que, o monopólio da violência corre o risco de cair nas ruas. Por outro, tal como Stokely Carmichael/Kwame Ture afirmara – “Para que a não-violência funcione, o oponente deve possuir consciência”, já que em diversos casos da história, a violência foi a única opção fiável capaz de libertar um povo das amarras da tirania.
A situação no Nepal pode evocar esta reflexão dicotómica ao se observar o sucedido. Assim, menos de quarenta e oito horas após as críticas do Oli, este resignou-se do cargo de Primeiro-ministro, partindo para a Índia, deixando um país com milhares de feridos e já mais de cinquenta mortos de ambos os lados. Perante a resposta implacável das autoridades, os protestantes que ganharam força ao longo dos dias, respondendo também com violência. Para além da fuga do ex-primeiro-ministro os manifestantes conseguiram destruir o Singha Durbar, a sede oficial do governo em Catmandu, assassinaram a mulher do ex-primeiro ministro ao incendiar a casa onde se encontrava, provocaram a fuga de mais de doze mil e quinhentos prisioneiros e procuram agora eleger um novo líder para o país, inclusivamente através do uso de plataformas de redes sociais como o WhatsApp e o Discord.
A situação política do Nepal evidencia como toda a repressão tem o seu limite, provocando reações contrárias que podem ou não ser proporcionais e que, mesmo não sendo, podem gozar de legitimidade moral, tal como o completo oposto. Mais do que responder a questões dessa índole, aqui expostas, esta reflexão procura expor as ocorrências atuais e fazer questionar, até porque, perante as circunstâncias, podemos apenas analisar, refletir e interpretar, mantendo-nos atentos a mais capítulos da história da política internacional.
O conteúdo aqui expresso vincula apenas o autor do artigo.
Samuel Caires
24 anos, natural do Funchal.
Mestre em Relações Internacionais e Estudos Europeus pela Universidade de Évora.
Licenciado em Relações Internacionais.
Embaixador Júnior do Parlamento Europeu e ligado à realização de eventos desse cariz.
Os seus principais interesses são: Relações Internacionais, Política, Direitos Humanos, História, Economia e Tecnologia.

