Quando se fecha uma porta, às vezes é melhor não abrir outra.
23-05-2026
Num intervalo de pouco mais de uma semana, a Europa foi palco de dois momentos eleitorais de enorme significado político. Se o continente respirou de alívio com a queda de um dos regimes mais controversos dos últimos anos, viu também, quase em simultâneo, a extrema-direita consolidar mais um ponto de influência no tabuleiro europeu. Dois países, dois resultados opostos, uma mesma tendência que não pode ser ignorada: a da ascensão de movimentos que capitalizam o descontentamento popular para chegar ao poder.
A Hungria e a Bulgária foram a eleições dentro do mesmo período de tempo. Se, por um lado, se esperava a queda de um regime de extrema-direita, por outro, receava-se a chegada da extrema-direita ao poder noutro país. Ambos os cenários se tornaram realidade: a 12 de abril, a Hungria festejou a derrota do pró-russo Viktor Orbán, e a 19 de abril, na Bulgária, chegou ao poder o pró-russo Rumen Radev.
Nas eleições húngaras mais participadas de sempre, o povo foi às urnas em força e colocou fim ao regime de Viktor Orbán, elegendo o agora primeiro-ministro Péter Magyar, que festejou a vitória com milhares de apoiantes nas ruas. Esta foi uma eleição acompanhada de perto por toda a Europa, pelos EUA e pela Rússia, uma vez que uma mudança de regime significava uma maior abertura à União Europeia e o fecho de mais uma porta a Vladimir Putin.
Péter Magyar soube capitalizar o cansaço de uma população que, ao fim de mais de uma década de “orbanismo”, via o país cada vez mais isolado na Europa, a liberdade de imprensa deteriorada e a corrupção institucionalizada. Magyar conseguiu a proeza de se apresentar como rosto de rutura precisamente por conhecer o regime por dentro. A sua mensagem pró-europeia ressoou no eleitorado que percebeu, finalmente, que existia uma alternativa credível e que o custo de não votar era demasiado alto.
Porém, como é comum dizer, quando se fecha uma porta, abre-se outra. Na Bulgária, uma semana depois, foi eleito primeiro-ministro o ex-presidente Rumen Radev, antigo general crítico das elites políticas, com posições próximas da Rússia e assumido admirador de Viktor Orbán. O país, considerado o mais pobre da União Europeia, apresentou-se às urnas para as suas oitavas eleições legislativas desde 2021, e foi precisamente neste contexto de frustração acumulada que a extrema-direita conquistou mais um assento no poder europeu. Sob as bandeiras que se tornaram marca da extrema-direita um pouco por todo o mundo – estratégia calculada ou simples falta de originalidade? –, o ex-militar soube aproveitar a perceção generalizada de uma classe política corrupta e a ausência de melhorias visíveis no nível de vida da população, para chegar ao poder.
Recuemos agora a 2023. Nesse ano, na Polónia, foi derrotado nas urnas o eurocético e ultranacionalista Mateusz Morawiecki – fervoroso admirador de Donald Trump –, em detrimento de Donald Tusk, que lidera uma coligação de partidos pró-europeus e liberais. Este é mais um caso da derrota da extrema-direita, após a perceção, por parte do povo, de que existia uma escolha moderada – que deixaria a sua vida mais livre e menos condicionada –, percebendo que as promessas eleitorais da extrema-direita eram só mesmo isso: promessas eleitorais.
Já vimos, portanto, que os cidadãos tendem a perceber que as alterações impostas pela extrema-direita ao país, raramente se traduzem numa melhoria no nível de vida. E isto é algo que devemos também ter em conta para o contexto nacional, porque a extrema-direita é tão perigosa pelo que faz, como pelo que não faz. E, se olharmos para os EUA, isto é evidente, pois sabemos que Donald Trump dificilmente ganharia as eleições se estas se realizassem hoje, ou, pelo menos, não as ganharia de forma legítima.
Ora, como disse Nicolau Maquiavel na sua obra “O Príncipe”: “A natureza dos povos é inconstante e é fácil persuadi-los de uma coisa, mas é difícil mantê-los firmas nessa persuasão”. Esta é uma afirmação que nos mostra duas coisas: a primeira é que nos ajuda a perceber como é que a extrema-direita chega ao poder; a segunda é que nos ajuda a entender porque é que a extrema-direita falha.
A seguir a esta afirmação, Maquiavel refere o seguinte: “e por isso, convém estar ordenado de modo que, quando eles já não creem, se possa fazê-los crer pela força”. É impressionante como uma obra do século XVI se pode transpor perfeitamente para a atualidade, quinhentos anos depois, evidenciando porque é que a extrema-direita condiciona as liberdades dos cidadãos. Esta é a única forma de conseguir fazer valer a sua ideologia vazia de conteúdo e que em nada é capaz de melhorar a vida dos povos.
Portanto, há mesmo portas que mais vale deixar fechadas. Dando algumas perspetivas sobre o futuro da Europa e, mais concretamente das democracias europeias, os olhos estão atentos ao próximo domingo, às eleições no Chipre. Os cipriotas são chamados às urnas a 24 de maio, num cenário em que as sondagens dão a vitória à direita democrática, mas em que a extrema-direita cresce e deverá afirmar-se como terceira força política, sendo mais um caso a manter debaixo de olho para o futuro.
Desta forma, também é importante referir – partindo já para o caso português – que a instabilidade política é um forte impulsionador da extrema-direita e dos populismos de ocasião. Portugal foi às urnas em 2019, quando o CH elegeu o seu primeiro deputado, voltando a ter eleições em 2022 – cerca de 1 ano e meio antes do que era suposto –, numas eleições em que o CH subiu para 12 o número de deputados na AR. Sendo que cada Legislatura tem quatro anos de duração, seria de prever que as eleições legislativas seguintes – ainda para mais com um governo de maioria absoluta no poder – chegassem apenas em 2026. No entanto, voltamos às urnas em 2024 e 2025, passando o CH para 50 e 60 deputados, respetivamente, em cada Legislatura.
Haverá exemplo mais claro da subida clássica da extrema-direita ou precisaremos de mais eleições antecipadas para o perceber? Precisaremos de mais deputados extremistas para perceber que, tal como nos outros países, não trarão nada de bom ao país? Precisaremos de mais deputados com uma ideologia que em nada melhora a vida dos povos que a elegeram para perceber que o mesmo aconteceria em Portugal numa eleição da extrema-direita? Em fevereiro, com o resultado das eleições presidenciais, Portugal fechou uma porta à extrema-direita e é importante que esta se mantenha fechada. Mas, para isso, também é preciso responsabilidade política e moderação dos partidos clássicos – os partidos democráticos.
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Daniel Novais
23 anos, natural de Coimbra.
Estudante de Mestrado em Ciência Política na Universidade de Aveiro.
Licenciado em Relações Internacionais pela Universidade de Évora.
Ativo no associativismo, além de presidente da Liberalitas – YMTT é também o atual Secretário-Geral da Federação Nacional dos Estudos Europeus.
Tem como principais interesses: Política, Direitos Humanos, Informação, Organização de Eventos e Desenvolvimento de Projetos.

